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origem e história

O Mastim Napolitano tem fama de ser um terrível guarda-costas. É verdade que, com a sua impressionante envergadura, rematada por uma enorme cabeça, este cão dotado de um físico capaz de intimidar qualquer um.
Dele ou dos seus antepassados directos ocupam-se tanto as crónicas de guerra como as descrições dos jogos de circo, embora também tenham sido utilizados em outras tarefas mais “domésticas”.

Eis aqui, a título de exemplo, o retrato que dele traçou o romano Columela no séc. III
“O cão de guarda da casa deve ser preto ou escuro, de modo a que durante o dia possa ser visto pelo ladrão e o seu aspecto escuro lhe inspire um sentimento de medo. À noite, o cão dilui-se na escuridão, e passa despercebido, de forma a poder atacar sem ser visto. A sua cabeça é tão maciça que se apresenta como a parte mais importante do corpo”.
Há que reconhecer que esta descrição do Mastim Napolitano pouco mudou em dezassete séculos. O sábio agrónomo alongava-se depois com uma comparação entre dois tipos de cão de guarda, uma comparação clássica já no seu tempo, visto que se encontra em Virgílio, o que mais tarde seria retomada muitas vezes, sobretudo por Olivier de Serres, em 1600. Ao escuro guardião da casa opunha-se outro branco, protector dos rebanhos, branco não só para que não se confundisse na escuridão com animal selvagem, mas também para que as ovelhas não se assustassem. É claro que fazem parte deste segundo tipo os grandes cães das montanhas como os pastores dos Abruzzus e de La Maremme, para falar apenas da Itália.
A distinção continua a ser válida, na medida em que a cinofilia moderna distingue os molossos “tipo dogo” dos molossos “tipo montanha”. Considera-se que uns e outros, e entre eles os mastins de Nápoles, procedem dos planaltos Tibetanos embora, considerando o pouco que se sabe acerca dos cães do Tibete, a hipótese da existência de um antepassado original Tibetano (que parece tão mítico como o considerável tamanho que se lhe atribui) seja bem mais frágil. Parece ainda mais discutível que se possa retroceder até ao Mioceno (há cerca de 20 milhões de anos) para encontrar um Simocyon Diaphorus convertido em antepassado de todos os dogos, segundo algumas obras..

Mais modestamente, deter-nos-emos nas primeiras representações correctas dos molossos feitas pelos Sumérios (entre o quarto e o segundo milénio antes de Cristo), e sobretudo pelos seus sucessores, os Assírios (1º milénio A.C.). Estas duas civilizações deixaram-nos em particular uns baixos-relevos de um realismo impressionante, que fazem pensar precisamente nas raças de dogos actuais, em cães de constituição robusta e com uma cabeça muito forte. E, como aparece sempre um homem com esses cães, é possível fazer-se uma ideia da sua estatura, que parece excepcionalmente elevada.
Quanto às circunstâncias que fizeram chegar esses cães do Médio Oriente até à Europa, poderia considerar-se várias hipóteses. No século IV A.C. é indubitável que Alexandre Magno teve múltiplas ocasiões de ver esses molossos na sua expedição à Índia. No entanto, parece que já os conhecia antes de empreender essa conquista e talvez até tivesse alguns. Na verdade, a História registou o caso de um deles chamado Periles. Por outro lado, a podemos mencionar um relato a propósito de Ciro (o Grande) que viveu dois séculos antes de Alexandre, o povo dos molossos ofereceu ao rei um cão de combate realmente extraordinário que só estava disposto a demonstrar as qualidades perante um adversário que estivesse à sua altura, ou seja, um elefante, o qual segundo Horodoto, despedaçava num abrir e fechar de olhos. Como se vê, a fama dos dogos não é de hoje. É um facto que no mundo antigo não se atribuía uma origem asiática a esses cães.

O nome grego, molossos, refere-se à sua pertença, a um povo os Molossos, que viviam em Épiro, no sudoeste da Macedónia (assim, falar dos “molossos de Épiro” é redundante). Por conseguinte, a Molóssia não estava situada na Ásia, mas é justo recordar que alguns autores antigos mencionaram cães do tipo molosso procedentes da Lídia, ou da Cecília, ambas as regiões situadas na Ásia Menor. Em todo o caso, costuma-se admitir que foram os Fenícios, hábeis comerciantes, que difundiram este tipo de cão, cujo valor provavelmente seria grande. Há que destacar que ao Fenícios estabeleceram relações tanto com os Assírios como com os Gregos e depois com os Romanos.
Mas, seja qual for a sua precedência real, os molossos aparecem entre os Romanos, cujo império era tão vasto que os cães podiam vir até eles a partir das regiões mais diversas. Sabe-se que Roma utilizou amplamente os molossos. Nos circos, estes defrontavam-se com os gladiadores e com os animais selvagens que eram trazidos dos territórios conquistados.
Também foram valiosos auxiliares das legiões e serviram igualmente de guarda das ricas residências das famílias patriciais. Mais tarde quando se generalizou a moda das “residência secundárias”, estes terríveis cães deslocaram-se para sul. Foi assim que os dogos chegaram a Nápoles, Pompeia e Paestrum, os lugares de veraneio mais conhecidos daquele tempo, devido ao seu clima quente e seco. Depois, o Mastim foi-se convertendo aos poucos de favorito da aristocracia em elemento da tradição rural da região. De facto é mais provável que, ao perder o seu nobre estatuto, o Mastim perdesse igualmente algo da sua excelência e estatura típicas, contudo a sua sobrevivência foi assegurada enquanto se puderam manter as tradições, embora os aldeões tivessem dificuldades em alimentá-los convenientemente, o seu potencial manteve-se quase intacto. Por outro lado, Nápoles era uma cidade onde reinava um permanente clima de insegurança onde se movia uma população que necessitava de viver e se alimentar. A cidade e os seus arredores eram perigosos à noite e os guardas que pertenciam às milícias privadas levavam com eles magníficos mastins. Fazendo-lhes frente os espadachins e os bandidos utilizavam os mesmos cães, com fins opostos. As duas guerras mundiais trouxeram períodos de racionamento alimentar e, acima de tudo, convulsões sociais que fizeram esquecer o tradicional Mastim. Em todo o caso, restaram algumas pessoas que se interessaram por ele, pois na primeira exposição canina realizada em Nápoles, em 1946 foram apresentados oito exemplares que fizeram a admiração do público e dos peritos. Ignora-se se entre os espectadores se encontraria o escritor Pietro Scantece. Acontece que ele ouviu falar do Mastim, interessou-se por ele e dedicou-se a faze-lo aceitar entre as raças Italianas reconhecidas.

O conhecido cinólogo Fiorenzo Fiorone qualificou Scanziani de “reconstrutor” do Mastim Napolitano. Em 1949, começou a escolher do canil de Roma os melhores exemplares, seleccionando e obtendo esplêndidos resultados. Houve outros adeptos que lhe fizeram concorrência na Toscânia e na Lombardia e os seus esforços conjugados, depressa culminaram no reconhecimento da raça pela entidade nacional de cinofilia italiana (ENCI), a sociedade central canina italiana.

 

Scanziani foi o autor do primeiro estalão do Mastim Napolitano, que foi completamente recomendado em 1971. A partir de 1972, o Mastim começou a expandir-se fora de Itália, em particular na Alemanha e na Holanda, dois países em que os dogos são muito apreciados, especialmente os dotados de grande temperamento. O dogo transalpino não tardou a ser reconhecido em França, onde foi introduzido em 1975. O Mastim Napolitano também tem sido exportado para numerosos países, incluindo o Japão e os Estados Unidos, embora seja na Europa que está mais difundido.